| (c) 2011, algures por Portugal |
«E o mundo acabou. Inexplicavelmente, ou sem uma explicação que possa ser dita e entendida. O mundo acabou, como num instante em que se fechassem os olhos e não se visse sequer o que se vê com os olhos fechados. As crianças morreram, os risos das crianças, espalhados no sol e nos sábados e em Agosto, morreram. O mundo acabou como uma noite lançada do céu, e nunca mais se ouviram os risos das crianças, nunca mais foi sábado, nunca mais foi Agosto, nunca mais houve sol. E isso que era a ausência do mundo não era nem mesmo uma ausência, não era sequer como o espaço vago onde uma pessoa que morreu costumava estar e se olha e existe quando se sente; não era nem mesmo uma ausência, porque não havia ninguém para a sentir. Era uma noite infinita que acumulava todo o medo de todas as noites desde a primeira noite do mundo. Mas também o medo não existia, porque não existia ninguém para o sentir. O lugar das árvores, as suas formas e os seus pensamentos tinham morrido. Os ribeiros, a água fresca, o som quase silencioso da água fresca, os ribeiros tinham morrido. Os campos largos, as ervas secas, as pedras perdidas no chão, toda a lonjura dos campos, o vento sobre a terra, as searas, os campos do tamanho do olhar, a terra tinha morrido. As casas, os muros caiados tinham morrido. Os pássaros, a meio de um voo, os seus piares no fim de tarde tinham morrido. Já não havia tardes, manhãs, noites. Nunca mais o dia se levantaria lentamente, com os olhos baços numa madrugada; nunca mais ninguém se sentaria a sonhar a calma num fim de tarde, nunca mais a noite vaguearia sobre as casas a cobri-las com a sua capa rasgada de estrelas. O mundo acabou e nem o tempo prosseguiu. Os minutos não passavam porque não existiam, como não existiam os momentos ou os olhares. O infinito era o infinito de não ser nem infinito, nem nada. A morte não existia no meio de todas as coisas mortas. Não existiam os cadáveres. Tinha morrido a memória da morte. As crianças morreram e isso, que era a única coisa pela qual valia a pena chorar, não era lamentado por ninguém, porque já não havia dor, já não havia lágrimas, já não havia olhos ou peito para chorar.»
- «Nenhum Olhar», de José Luís Peixoto


