22 de abril de 2013

o estranho caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde.

(c) 2009, Rua Augusta - Lisboa


«Aqui devo falar apenas em termos teóricos, dizendo, não aquilo que sei, mas o que penso ser o mais provável. O lado maligno da minha natureza, para o qual tinha agora transferido o timbre da eficácia, era menos robusto e menos desenvolvido do que o lado benigno, a que acabara de renunciar. Mais uma vez, no decurso da minha vida, que fora, apesar de tudo, em nove décimos uma vida de esforço, virtude e controlo, esse lado maligno fora menos exercido e muito menos consumido. Daí o motivo, na minha opinião, por que Edward Hyde era muito mais baixo, franzino e jovem do que Henry Jekyll. Precisamente como o bem brilhava nas feições deste último, o mal estava ampla e visivelmente estampado no rosto do outro. Além disso, o mal (que ainda acredito ser o lado mortífero do homem) deixara naquele corpo uma marca de deformidade e decadência. E, no entanto, quando olhei para aquele ídolo hediondo no espelho, não tive consciência de alguma repugnância, mas antes de um gesto de acolhimento. Aquele também era eu. Parecia natural e humano. A meus olhos, continha uma imagem mais vívida do espírito, parecia mais expressivo e singular, do que fisionomia imperfeita e dividida que até então me habituara a designar como minha. E não havia dúvida que tinha razão. Observara que quando usava o semblante de Edward Hyde ninguém se podia aproximar de mim sem uma visível apreensão. Na minha opinião, isto devia-se ao facto de todos os seres humanos que conhecemos serem uma mistura do bem e do mal; e Edward Hyde, caso único na humanidade, era o mal em estado puro.» 

- «O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde», de Robert Louis Stevenson

1 comentário:

  1. A menos que fosse o Doryan Gray :P Mas é engraçada a ideia de que tanto o mal como o bem se reflectem na nossa aparência fisica. Tenho as minhas sérias duvidas, penso que essa apreensão ao aproximar-se de Edward Hyde seria mais intuitiva que conduzida pela sua aparência.

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